{"id":1746,"date":"2008-04-27T00:00:00","date_gmt":"2008-04-27T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/marinsbertoldi.com.br\/o-individualismo-e-o-futuro-do-emprego\/"},"modified":"2008-04-27T00:00:00","modified_gmt":"2008-04-27T03:00:00","slug":"o-individualismo-e-o-futuro-do-emprego","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marinsbertoldi.com.br\/en\/o-individualismo-e-o-futuro-do-emprego\/","title":{"rendered":"O individualismo e o futuro do emprego"},"content":{"rendered":"<p>O individualismo tem sido apresentado pelos soci\u00f3logos como uma caracter\u00edstica essencialmente negativa do s\u00e9culo XXI. Ju\u00edzos de valor \u00e0 parte, ele \u00e9 um fen\u00f4meno que n\u00e3o pode deixar de ser considerado nas an\u00e1lises quanto ao futuro das rela\u00e7\u00f5es de emprego.<\/p>\n<p>Zygmunt Bauman, em seu livro Modernidade L\u00edquida, explica que capitalismo e socialismo seriam varia\u00e7\u00f5es do fordismo, cujas caracter\u00edsticas essenciais eram o dirigismo, a redu\u00e7\u00e3o da liberdade e a fidelidade das rela\u00e7\u00f5es de trabalho. O s\u00e9culo XXI teria revelado n\u00e3o s\u00f3 o naufr\u00e1gio do socialismo, mas principalmente o do fordismo. O \u201ccapitalismo pesado\u201d foi substitu\u00eddo pelo \u201ccapitalismo leve\u201d, dependente mais dos fluxos do capital e de tecnologia do que dos grandes parques industriais, e no qual o conceito de emprego sofre uma brutal transforma\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>Os empregos passam a ser vistos como rela\u00e7\u00f5es transit\u00f3rias, como etapas de uma carreira. Na imagem fornecida pelo autor, n\u00e3o somos mais parte da tripula\u00e7\u00e3o de grandes navios, conduzidos pelos dirigentes industriais. Navegamos em nossos pr\u00f3prios e pequenos barcos, em um misto de liberdade e fragilidade. N\u00e3o cabe mais questionar se esta mudan\u00e7a \u00e9 boa ou m\u00e1. Simplesmente n\u00e3o h\u00e1 mais grandes navios.<\/p>\n<p>A tese de Bauman tornou superada a teoria da burocracia weberiana. N\u00e3o h\u00e1 mais espa\u00e7o para o dirigismo, seja na esfera da empresa, seja na do Estado. Este \u00e9 mais um elemento de convencimento no sentido da inefici\u00eancia do estado dirigista. Cabe ao Estado ensinar a navegar e, quando poss\u00edvel, produzir um bom vento. N\u00e3o adianta mais buscar o tim\u00e3o. Este n\u00e3o funciona. <\/p>\n<p>Duas outras caracter\u00edsticas do \u201ccapitalismo leve\u201d seriam a multiplicidade de escolhas e o individualismo. N\u00e3o h\u00e1 mais uma grande verdade (capitalismo ou socialismo) em busca de meios eficientes \u00e0 sua implementa\u00e7\u00e3o. Os fins n\u00e3o s\u00e3o mais certos. Perdemos o \u201cirm\u00e3o mais velho\u201d, que nos orientava e defendia. Estamos s\u00f3s, o que gera tanto oportunidades que nos impulsionam quanto a inseguran\u00e7a que traz consigo a ang\u00fastia. Para Bauman, \u201cestar inacabado, incompleto e subdeterminado \u00e9 um estado cheio de riscos e ansiedade\u201d. <\/p>\n<p>Outra obra que nos oferece uma vis\u00e3o contempor\u00e2nea sobre os reflexos do individualismo na regula\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de emprego \u00e9 o livro O Mundo \u00e9 Plano, de Thomas Friedman. <\/p>\n<p>Enquanto usualmente o individualismo \u00e9 vinculado ao consumismo, ao ego\u00edsmo ou \u00e0 gan\u00e2ncia, Thomas Friedman o v\u00ea como uma nova realidade de trabalho, em que os indiv\u00edduos passam a ter oportunidades globais. <\/p>\n<p>Para o autor, o processo de globaliza\u00e7\u00e3o apresenta tr\u00eas fases distintas. A primeira, que vai at\u00e9 1800, seria a globaliza\u00e7\u00e3o dos estados, em que o encurtamento das dist\u00e2ncias era fruto dos interesses comerciais estatais (com ou sem coloniza\u00e7\u00e3o). A segunda, que vai de 1800 a 2000, seria a globaliza\u00e7\u00e3o das empresas, em que as dist\u00e2ncias foram ainda mais encurtadas por for\u00e7a da atua\u00e7\u00e3o das multinacionais. J\u00e1 a terceira, a globaliza\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo, \u00e9 o produto da revolu\u00e7\u00e3o da web. <\/p>\n<p>Pessoas que residem em diferentes partes do mundo podem trabalhar sem que a dist\u00e2ncia entre elas e seu empregador represente um obst\u00e1culo intranspon\u00edvel. Que o digam os prestadores de servi\u00e7os de apoio administrativo indianos, que organizam documentos e processos de comunica\u00e7\u00e3o de empresas sediadas na Su\u00ed\u00e7a ou nos Estados Unidos. Quando um consumidor americano recorre a um servi\u00e7o de call Center, provavelmente ser\u00e1 atendido por um indiano (que se adaptou tanto para trabalhar madrugada adentro quando \u00e9 dia nos Estados Unidos quanto para falar com sotaque norte-americano). Mais relevantes do ponto de vista econ\u00f4mico s\u00e3o as empresas indianas de desenvolvimento de softwares, que se apresentaram ao mundo como m\u00e3o de obra barata para sanar os problemas do bug do mil\u00eanio, para desde ent\u00e3o tomar a dianteira neste mercado altamente competitivo.<\/p>\n<p>Neste mercado global, h\u00e1 que se debater a forma de regula\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es trabalhistas. O rigorismo de nossas normas deixa de ser um problema apenas para os empres\u00e1rios brasileiros, e passa a ser mais um potencial fator de desvantagem comparativa com outros pa\u00edses menos regulados no plano trabalhista. Se a estrutura do emprego mudou, o direito deve acompanhar as mudan\u00e7as. Nossas leis continuam na era do fordismo (na linguagem de Zygmunt Bauman), ou na da globaliza\u00e7\u00e3o 2.0 (na linguagem de Thomas Friedman). <\/p>\n<p>A oportunidade hist\u00f3rica \u00e9 evidente, e n\u00e3o pode ser desperdi\u00e7ada. Ao contr\u00e1rio das demais fases da globaliza\u00e7\u00e3o, em que os agentes eram essencialmente europeus ou norte-americanos, na globaliza\u00e7\u00e3o 3.0 (para manter a imagem oferecida por Thomas Friedman), a atua\u00e7\u00e3o dos agentes econ\u00f4micos deixa de depender de um pesado background estatal. <\/p>\n<p>Os norte-americanos j\u00e1 perceberam que \u00e9 ineficiente a manuten\u00e7\u00e3o de estruturas voltadas \u00e0 presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os b\u00e1sicos, quando eles podem ser desenvolvidos em outros pa\u00edses, com suporte tecnol\u00f3gico. Os custos com a m\u00e3o de obra local n\u00e3o s\u00e3o p\u00e1reo para os encontrados na \u00cdndia, para manter o exemplo. Os indianos j\u00e1 perceberam este fil\u00e3o, e est\u00e3o, at\u00e9 o momento, navegando tranquilamente neste mercado. Bangalore \u00e9 um dos locais mais conectados do mundo, e est\u00e1 receptivo a qualquer modalidade de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os que possa ser executada \u00e0 dist\u00e2ncia (o que envolve n\u00e3o s\u00f3 a presta\u00e7\u00e3o completa do servi\u00e7o, como tamb\u00e9m a realiza\u00e7\u00e3o de partes de um servi\u00e7o que continua a ser prestado no mercado de origem). <\/p>\n<p>Cabe a n\u00f3s, brasileiros, considerar a situa\u00e7\u00e3o atual, e nos prepararmos n\u00e3o exatamente para o futuro, mas sim para um presente que teimamos em n\u00e3o conhecer. Somos sagazes em criticar o off-shoring, acusando os respons\u00e1veis pela explora\u00e7\u00e3o de povos dominados. A realidade, por\u00e9m, \u00e9 outra. Indianos, chineses e outros est\u00e3o saindo da pobreza por revelarem efici\u00eancia na presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os para os mercados consolidados. Para os antigos empregados nestes mercados consolidados, abre-se a oportunidade para buscar fun\u00e7\u00f5es mais complexas. Enquanto isso, n\u00f3s fornecemos commodities, esquecendo que a produ\u00e7\u00e3o de tecnologia \u00e9 o fator essencial de desenvolvimento econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>Nesta dan\u00e7a das cadeiras em que se transformou a ordem econ\u00f4mica mundial, a maioria dos pa\u00edses adota as melhores estrat\u00e9gias para conseguir um bom lugar, enquanto n\u00f3s permanecemos \u00e0 dist\u00e2ncia, criticando. Em p\u00e9.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O individualismo tem sido apresentado pelos soci\u00f3logos como uma caracter\u00edstica essencialmente negativa do s\u00e9culo XXI. Ju\u00edzos de valor \u00e0 parte, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"wds_primary_category":0,"footnotes":""},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-1746","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/marinsbertoldi.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1746","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/marinsbertoldi.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/marinsbertoldi.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/marinsbertoldi.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/marinsbertoldi.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1746"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/marinsbertoldi.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1746\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/marinsbertoldi.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1746"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/marinsbertoldi.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1746"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/marinsbertoldi.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1746"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}