{"id":1749,"date":"2008-04-06T00:00:00","date_gmt":"2008-04-06T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/marinsbertoldi.com.br\/o-mercado-nao-e-o-inimigo\/"},"modified":"2008-04-06T00:00:00","modified_gmt":"2008-04-06T03:00:00","slug":"o-mercado-nao-e-o-inimigo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marinsbertoldi.com.br\/en\/o-mercado-nao-e-o-inimigo\/","title":{"rendered":"O mercado n\u00e3o \u00e9 o inimigo"},"content":{"rendered":"<p>A janela de nossos carros nos apresenta uma realidade angustiante. A mis\u00e9ria est\u00e1 t\u00e3o presente em nosso cotidiano que aos poucos se transforma em uma paisagem comum. Passamos pela fome alheia como quem ignora um outdoor que n\u00e3o nos atrai o olhar. Mas a fome n\u00e3o poderia ser ignorada. Aqueles que a sofrem s\u00e3o pessoas, assim como nossos pais, assim como nossos filhos. E a fome, para aqueles que conseguem imagin\u00e1-la, \u00e9 cruel.<\/p>\n<p>S\u00e3o poucos os que n\u00e3o se omitem diante deste quadro. Mas de sua luta depende um futuro mais justo. <\/p>\n<p>Aqueles que n\u00e3o se omitem naturalmente agem movidos pela emo\u00e7\u00e3o. Reagem. E, premidos pela emo\u00e7\u00e3o, descarregam sua ang\u00fastia no inimigo mais vis\u00edvel: a economia de mercado. Ela seria a respons\u00e1vel pela explora\u00e7\u00e3o dos fracos, pelos desvios do consumismo, pelo individualismo e por todos os subprodutos da gan\u00e2ncia. Debaixo desta premissa, o combate \u00e0 economia de mercado (ou \u00e0 ordem capitalista, como queira), tornou-se o discurso de base daqueles que buscam a redu\u00e7\u00e3o das injusti\u00e7as sociais. <\/p>\n<p>Esta ordem de rea\u00e7\u00e3o \u00e9 leg\u00edtima. Mas, d\u00e9cada ap\u00f3s d\u00e9cada, produziu poucos resultados concretos. As estat\u00edsticas econ\u00f4micas demonstram uma sens\u00edvel diminui\u00e7\u00e3o no percentual da popula\u00e7\u00e3o mundial que vive abaixo da linha da pobreza. Estima-se que 1,5 bilh\u00e3o de pessoas tentavam a sobreviv\u00eancia com menos de 1 d\u00f3lar por dia em 1981. Em 2001, os extremamente pobres eram 1,1 bilh\u00e3o de pessoas. Trata-se de uma retra\u00e7\u00e3o significativa nos n\u00edveis de pobreza, especialmente a se considerar o aumento da popula\u00e7\u00e3o mundial nestas duas d\u00e9cadas. Mas estes resultados n\u00e3o podem ser creditados \u00e0 postura acad\u00eamica de combate ao mercado. Eles s\u00e3o decorr\u00eancia da evolu\u00e7\u00e3o da economia de mercado. O inimigo declarado foi o agente promotor do objetivo desejado. <\/p>\n<p>Deste quadro, surge a quest\u00e3o: a redu\u00e7\u00e3o das injusti\u00e7as sociais ser\u00e1 fruto da nega\u00e7\u00e3o ou do aperfei\u00e7oamento da economia de mercado? <\/p>\n<p>Um dos poucos que n\u00e3o se omitem no combate \u00e0 injusti\u00e7a social \u00e9 o economista norte-americano Jeffrey Sachs. Sua obra mais conhecida (O Fim da Pobreza) \u00e9 um projeto de elimina\u00e7\u00e3o da pobreza extrema (at\u00e9 um d\u00f3lar per capita ao dia), em n\u00edvel mundial, at\u00e9 o ano de 2.015. Para o autor, este resultado n\u00e3o \u00e9 uma fic\u00e7\u00e3o, e advir\u00e1 do est\u00edmulo ao desenvolvimento da economia de mercado.<\/p>\n<p>Baseado em muita estat\u00edstica, e em uma experi\u00eancia profissional que envolveu o assessoramento econ\u00f4mico \u00e0 Bol\u00edvia, \u00e0 Pol\u00f4nia, \u00e0 R\u00fassia, \u00e0 \u00cdndia, \u00e0 China e, na \u00faltima d\u00e9cada, aos mais pobres dos pa\u00edses africanos, Jeffrey Sachs parte da premissa de que \u201co desenvolvimento econ\u00f4mico n\u00e3o \u00e9 um jogo de soma zero, em que os ganhos de alguns s\u00e3o inevitavelmente espelhados pelas perdas de outros. Neste jogo, todos podem vencer.\u201d Ou seja: os frutos da economia de mercado geram os recursos necess\u00e1rios para a promo\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas sociais. N\u00e3o se trata de ret\u00f3rica. Quatrocentos milh\u00f5es de pessoas, em vinte anos, sa\u00edram da mis\u00e9ria por viverem em pa\u00edses que estimularam o desenvolvimento econ\u00f4mico interno.<\/p>\n<p>Angus Maddison, em seu estudo The World Economy: A Millenial Perspective apresenta um grande volume de dados econ\u00f4micos hist\u00f3ricos que evidenciam o crescimento exponencial da renda per capita global desde a efetiva implanta\u00e7\u00e3o do sistema de mercado (que, para o autor, ocorreu na Europa a partir de 1820). O historiador econ\u00f4mico tamb\u00e9m demonstra, empiricamente, que o desenvolvimento tecnol\u00f3gico \u00e9 o grande respons\u00e1vel pela gera\u00e7\u00e3o de riqueza, afastando a tese marxista da concentra\u00e7\u00e3o de riquezas como resultado primordialmente da explora\u00e7\u00e3o do trabalho alheio. <\/p>\n<p>Ainda que no ambiente universit\u00e1rio seja sempre simp\u00e1tica a defesa do ide\u00e1rio socialista, estamos convictos de que esta n\u00e3o mais \u00e9 uma alternativa vi\u00e1vel. Quem percebeu mais claramente este fato foi Fernando Henrique Cardoso, autor da teoria da depend\u00eancia, que governou em busca de fundamentos econ\u00f4micos absolutamente opostos aos que pregava em suas aulas. <\/p>\n<p>A premissa fundamental da abordagem marxista da hist\u00f3ria mostrou-se equivocada. A mais valia n\u00e3o adv\u00e9m da explora\u00e7\u00e3o do trabalho, mas de uma s\u00e9rie de outros elementos econ\u00f4micos, que envolvem especialmente o desenvolvimento de tecnologia. Para Jeffrey Sachs, \u201ca tecnologia foi a principal for\u00e7a por tr\u00e1s dos aumentos de longo prazo na renda do mundo rico, n\u00e3o a explora\u00e7\u00e3o dos pobres\u201d. <\/p>\n<p>N\u00e3o foi por acaso que a experi\u00eancia socialista revelou-se um fracasso. Suas pol\u00edticas p\u00fablicas mostraram-se absolutamente ineficientes. As mazelas da economia de mercado foram mantidas (e em certos casos aprimoradas), com a essencial distin\u00e7\u00e3o de o poder estar centralizado nas lideran\u00e7as da estrutura burocr\u00e1tica, cuja ascend\u00eancia pouco decorria de m\u00e9ritos pessoais. Por tais raz\u00f5es, Arnaldo Jabor afirmou nesta semana, em an\u00e1lise da atual transi\u00e7\u00e3o de poder em Cuba, que o sonho de uma sociedade justa e igualit\u00e1ria n\u00e3o produziu mais do que pesadelos.<\/p>\n<p>Afastada a alternativa socialista, pode-se vislumbrar a economia de mercado como algo a ser combatido ou algo a ser estimulado. A defesa de um sistema de mercado \u00e9 tradicionalmente combatida nos ambientes acad\u00eamicos, por ser considerada uma op\u00e7\u00e3o direitista, retr\u00f3grada e tendente \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o das desigualdades sociais. A postura consciente seria a de combate \u00e0 estrutura econ\u00f4mica geradora de injusti\u00e7as inaceit\u00e1veis; ou seja, uma postura anticapitalista.<\/p>\n<p>Como j\u00e1 afirmamos, os ataques ret\u00f3ricos \u00e0 economia de mercado s\u00e3o simp\u00e1ticos, mas ineficientes. Se o desejo \u00e9 a redu\u00e7\u00e3o das desigualdades e a diminui\u00e7\u00e3o dos n\u00edveis de pobreza, parece-nos mais l\u00f3gico trabalhar na busca de uma maior efici\u00eancia do sistema de mercado. Se o mecanismo apresenta falhas, \u00e9 mais eficiente consert\u00e1-lo do que descart\u00e1-lo em busca de um substituto que nunca foi testado com \u00eaxito. <\/p>\n<p>Com base tais premissas, Michael Edwards (diretor do Programa de Governan\u00e7a e Sociedade Civil da Ford Foundation) afirma que \u201cn\u00e3o h\u00e1 nada na hist\u00f3ria para sugerir que o capitalismo \u00e9 algo al\u00e9m de divis\u00f3rio, sujo e desigual, por mais avan\u00e7os materiais e tecnol\u00f3gicos que ele traga. Todavia, as alternativas que experimentamos acabaram se mostrando ainda piores (como economias centralmente planejadas) e as outras a cujo respeito ainda falamos (como a autossufici\u00eancia cooperativa) carecem de base de apoio para serem postas em pr\u00e1tica. Por isso, resta-nos a tarefa de humanizar o capitalismo, ou seja, preservar o dinamismo dos mercados, o com\u00e9rcio e a energia empreendedora, ao mesmo tempo em que procuramos maneiras melhores de distribuir o excedente que eles geraram e remodelar os processos que o produzem.\u201d<\/p>\n<p>Ainda mais incisivo foi Max Weber, em seu cl\u00e1ssico A \u00c9tica Protestante do Capitalismo, ao defender, ainda no s\u00e9culo XIX (quando eram muito mais agudas as tens\u00f5es entre capitalismo e socialismo), que os desvios ego\u00edsticos de busca incessante pelo lucro n\u00e3o s\u00e3o uma caracter\u00edstica do capitalismo, mas sim do homem. Para o soci\u00f3logo alem\u00e3o, \u201co impulso para o ganho, a percep\u00e7\u00e3o do lucro, do dinheiro, da maior quantidade poss\u00edvel de dinheiro, n\u00e3o tem, em si mesmo, nada a ver com o capitalismo. Tal impulso existe e sempre existiu entre gar\u00e7ons, m\u00e9dicos, cocheiros, artistas, prostitutas, funcion\u00e1rios desonestos, soldados, nobres, cruzados, apostadores, mendigos etc&#8230; Pode-se dizer que tem sido comum a toda sorte e condi\u00e7\u00f5es humanas em todos os tempos e em todos os pa\u00edses da Terra, sempre que se tenha apresentado a possibilidade objetiva para tanto. \u00c9 coisa do jardim de inf\u00e2ncia da hist\u00f3ria cultural a no\u00e7\u00e3o de que essa ideia ing\u00eanua de capitalismo deva ser eliminada definitivamente.\u201d<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que a economia de mercado apresenta desvios de aplica\u00e7\u00e3o. Em qualquer sistema eles existem, e devem ser eficazmente combatidos. Mas, com todas as falhas da economia de mercado, este \u00e9 o sistema objetivamente mais eficiente na gera\u00e7\u00e3o de riquezas, fato obviamente necess\u00e1rio para a implanta\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas sociais. Se houver outras solu\u00e7\u00f5es eficientes, ser\u00e1 poss\u00edvel consider\u00e1-las como alternativas de estrutura\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. Mas, nas obras que atacam a economia de mercado, pouco encontramos para al\u00e9m das cr\u00edticas desvinculadas de alternativas vi\u00e1veis. Por tal raz\u00e3o, ainda que conscientes dos desvios inerentes \u00e0 esp\u00e9cie humana e da pouca simpatia que a economia capitalista gera, defendemos a necessidade de garantir um s\u00f3lido desenvolvimento da economia de mercado como caminho eficiente \u00e0 implanta\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas sociais.<\/p>\n<p>Os desvios ocorridos na economia de mercado s\u00e3o perniciosos. Mas eles s\u00e3o menos uma consequ\u00eancia natural deste sistema econ\u00f4mico do que um subproduto da ignor\u00e2ncia. A submiss\u00e3o ao consumismo \u00e9 essencialmente negativa, mas floresce com muito mais vigor onde predomina a superficialidade da educa\u00e7\u00e3o, em todos os estratos socioecon\u00f4micos. A impunidade aos crimes corporativos diminui na propor\u00e7\u00e3o do conhecimento dos fatos e de suas consequ\u00eancias pela popula\u00e7\u00e3o, principalmente quando esta tem condi\u00e7\u00e3o de votar de forma consciente, elevando a maturidade da democracia e a solidez das institui\u00e7\u00f5es (fatos que, de sobra, diminuem a margem \u00e0s pr\u00e1ticas de corrup\u00e7\u00e3o). <\/p>\n<p>Se reunirmos aquilo que mais revolta causa em uma an\u00e1lise consciente da forma de vida do s\u00e9culo XXI, poderemos perceber que n\u00e3o se tratam de frutos do capitalismo, mas sim de inevit\u00e1veis consequ\u00eancias da ignor\u00e2ncia. \u00c9 a ignor\u00e2ncia, e n\u00e3o a economia de mercado, o inimigo a ser combatido. E a revers\u00e3o deste quadro \u00e9 um processo lento, cujo primeiro passo \u00e9 conhecido e confirmado pela experi\u00eancia hist\u00f3rica: um investimento maci\u00e7o em educa\u00e7\u00e3o de base, durante pelo menos duas d\u00e9cadas. <\/p>\n<p>Talvez esta proposta pare\u00e7a um sonho distante, especialmente quando consideramos os interesses eleitoreiros na f\u00e1cil convers\u00e3o da ignor\u00e2ncia em votos. Mas os sonhos n\u00e3o seriam sonhos se um dia n\u00e3o pudessem se tornar realidade. E esta realidade j\u00e1 foi constru\u00edda em outros pa\u00edses, onde os discursos n\u00e3o foram simplesmente lan\u00e7ados ao ar, em busca de aplausos; ao contr\u00e1rio, transformaram-se em um conjunto de a\u00e7\u00f5es eficientes contra um inimigo bem identificado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A janela de nossos carros nos apresenta uma realidade angustiante. 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