{"id":3284,"date":"2024-05-02T00:00:00","date_gmt":"2024-05-02T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/marinsbertoldi.com.br\/o-nao-cabimento-das-acoes-rescisorias-ajuizadas-pela-uniao-na-tese-do-seculo\/"},"modified":"2024-06-02T22:06:01","modified_gmt":"2024-06-03T01:06:01","slug":"o-nao-cabimento-das-acoes-rescisorias-ajuizadas-pela-uniao-na-tese-do-seculo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marinsbertoldi.com.br\/en\/o-nao-cabimento-das-acoes-rescisorias-ajuizadas-pela-uniao-na-tese-do-seculo\/","title":{"rendered":"O [n\u00e3o] cabimento das a\u00e7\u00f5es rescis\u00f3rias ajuizadas pela Uni\u00e3o na tese do s\u00e9culo"},"content":{"rendered":"<p>Passados mais de dois anos do tr\u00e2nsito em julgado da tese do s\u00e9culo, a exclus\u00e3o do ICMS da base de c\u00e1lculo do PIS e da COFINS continua tendo novos desdobramentos nos Tribunais Superiores. E a discuss\u00e3o da vez diz respeito \u00e0s a\u00e7\u00f5es rescis\u00f3rias ajuizadas pela Uni\u00e3o com o objetivo aplicar a modula\u00e7\u00e3o de efeitos definida no julgamento dos Embargos de Declara\u00e7\u00e3o do Tema 69, em 2021.<\/p>\n<p>Tratando de uma breve linha temporal, em 2017, o Supremo Tribunal Federal proferiu decis\u00e3o de m\u00e9rito no RE 574.706 (Tema n\u00ba 69) fixando a tese de que \u201c<em>o ICMS n\u00e3o comp\u00f5e a base de c\u00e1lculo para a incid\u00eancia do PIS e da COFINS<\/em>\u201d.\u00a0 Quatro anos depois, em agosto de 2021, a mesma Corte julgou os Embargos de Declara\u00e7\u00e3o opostos contra o ac\u00f3rd\u00e3o paradigma, oportunidade na qual: <strong>(i)<\/strong> estabeleceu-se que o ICMS destacado nas notas fiscais deveria ser exclu\u00eddo da base de c\u00e1lculo das contribui\u00e7\u00f5es; bem como, <strong>(ii) modulou os efeitos temporais<\/strong> da decis\u00e3o para 15\/03\/2017, ressalvadas as a\u00e7\u00f5es judiciais e os procedimentos administrativos protocolados at\u00e9 ent\u00e3o.<\/p>\n<p>Diante deste lapso temporal de 4 anos entre os julgamentos, diversas a\u00e7\u00f5es judiciais ajuizadas ap\u00f3s 15\/03\/2017 tiveram o seu tr\u00e2nsito em julgado antes da aprecia\u00e7\u00e3o dos Embargos de Declara\u00e7\u00e3o do Tema 69. Isso fez com que, para estes casos, a Uni\u00e3o ajuizasse a\u00e7\u00f5es rescis\u00f3rias com o intuito de aplicar a modula\u00e7\u00e3o de efeitos e limitar o proveito econ\u00f4mico obtido pelos contribuintes.<\/p>\n<p>Os Tribunais de 2\u00aa inst\u00e2ncia v\u00eam sinalizando, na maioria das decis\u00f5es, o cabimento e provimento destas a\u00e7\u00f5es rescis\u00f3rias. Todavia, com a devida v\u00eania, este n\u00e3o nos parece ser o correto entendimento sobre o tema, principalmente quando confrontamos a discuss\u00e3o com a S\u00famula n\u00ba 343\/STF e Tema n\u00ba 136 da Repercuss\u00e3o Geral.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Sumula n\u00ba 343\/STF, este verbete nos diz que \u201c<em>n\u00e3o cabe a\u00e7\u00e3o rescis\u00f3ria por ofensa a literal disposi\u00e7\u00e3o de lei, quando a decis\u00e3o rescindenda se tiver baseado em texto legal de interpreta\u00e7\u00e3o controvertida nos tribunai<\/em>s\u201d. E aqui, a express\u00e3o \u201c<em>controvertida nos tribunais<\/em>\u201d foi esclarecida pelo STF no RE 590.809\/RS, e pelo STJ na AR 4.443\/RS, como <strong>aus\u00eancia de controle concentrado de constitucionalidade<\/strong>.<\/p>\n<p>Em outras palavras, o afastamento da S\u00famula n\u00ba 343\/STF \u2013 e cabimento da a\u00e7\u00e3o rescis\u00f3ria -, s\u00f3 seria poss\u00edvel se o STF proferisse uma decis\u00e3o em controle concentrado de constitucionalidade (ADI, ADC, ADO e ADPF) conflitante com a coisa julgada individual.<\/p>\n<p>Considerando que o RE 574.706 (Tema 69) foi julgado sob a sistem\u00e1tica do controle difuso de constitucionalidade, o n\u00e3o cabimento de a\u00e7\u00f5es rescis\u00f3rias ajuizadas pela Uni\u00e3o demonstraria o entendimento mais correto a ser adotado sobre o tema, observando o teor da S\u00famula n\u00ba 343\/STF, ainda vigente em nosso ordenamento jur\u00eddico.<\/p>\n<p>O STJ vem seguindo este racioc\u00ednio. Quando teve a oportunidade de se manifestar sobre o tema nos Recursos Especiais n\u00ba 2058293\/RS e 2060442\/RS, a Corte Superior entendeu que \u201c<em>a quest\u00e3o acerca da inclus\u00e3o do ICMS na base de c\u00e1lculo do PIS e da COFINS somente restou pacificada com o julgamento do RE 574.706\/PR, pelo Supremo Tribunal Federal, sob o regime da Repercuss\u00e3o Geral (<\/em><strong><em>controle difuso de constitucionalidade, e n\u00e3o concentrado), n\u00e3o se enquadrando na exce\u00e7\u00e3o prevista pelo STF a justificar o cabimento da A\u00e7\u00e3o Rescis\u00f3ria<\/em><\/strong><em> [&#8230;].\u201d<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o bastasse o entendimento supramencionado, \u00e9 necess\u00e1rio destacar que o Tema n\u00ba 136\/STF tamb\u00e9m afasta o cabimento das a\u00e7\u00f5es rescis\u00f3rias ajuizadas pela Uni\u00e3o. Explica-se.<\/p>\n<p>Em 2014, ao julgar o RE 590.809 sob a sistem\u00e1tica da Repercuss\u00e3o Geral, o STF definiu a tese de que \u201c<em>n\u00e3o caba a\u00e7\u00e3o rescis\u00f3ria quando o julgado estiver em harmonia com o entendimento firmado pelo Plen\u00e1rio do Supremo \u00e0 \u00e9poca da formaliza\u00e7\u00e3o do ac\u00f3rd\u00e3o rescindendo, ainda que ocorra posterior supera\u00e7\u00e3o do precedente<\/em>\u201d (Tema n\u00ba 136).<\/p>\n<p>E aqui, o \u201c<em>entendimento firmado pelo Plen\u00e1rio do Supremo<\/em>\u201d \u2013 previsto na tese fixada no Tema n\u00ba 136 -, n\u00e3o se verifica somente ap\u00f3s o tr\u00e2nsito em julgado daquele paradigma. Isso porque, nos termos dos artigos 926 e 1.040, do CPC, os Tribunais dever\u00e3o observar a orienta\u00e7\u00e3o dos Tribunais Superiores logo ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o do ac\u00f3rd\u00e3o paradigma. Ou seja, o \u201c<em>entendimento firmado pelo Plen\u00e1rio do Supremo<\/em>\u201d se concretiza logo ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o daquela decis\u00e3o.<\/p>\n<p>Considerando essa tese fixada, \u00e9 n\u00edtido que entre as datas de 15\/03\/2017 e 15\/03\/2021, o entendimento do Plen\u00e1rio do STF era no sentido de que o ICMS n\u00e3o deveria compor a base de c\u00e1lculo do PIS e da COFINS, sem qualquer limita\u00e7\u00e3o temporal em fun\u00e7\u00e3o da modula\u00e7\u00e3o de efeitos.<\/p>\n<p>Isso significa dizer que, se determinada a\u00e7\u00e3o individual tivesse seu tr\u00e2nsito em julgado anterior \u00e0 data de julgamento dos Embargos de Declara\u00e7\u00e3o (15\/03\/2021), esta coisa julgada n\u00e3o poderia ser afetada por uma a\u00e7\u00e3o rescis\u00f3ria, uma vez que seu teor estava em harmonia com o entendimento do STF definido at\u00e9 ent\u00e3o.<\/p>\n<p>E \u00e9 exatamente neste sentido que delineiam-se os primeiros posicionamentos do STF quanto \u00e0 mat\u00e9ria. Com efeito, em decis\u00e3o monocr\u00e1tica proferida no Recurso Extraordin\u00e1rio n\u00ba 1468946\/RS, o Min. Luiz Fux julgou que \u201c<em>o ac\u00f3rd\u00e3o rescindendo transitou em julgado em 25\/2\/2021, <\/em><strong><em>antes, portanto, do julgamento dos embargos de declara\u00e7\u00e3o no RE 574.706<\/em><\/strong><em>, que fixou a modula\u00e7\u00e3o temporal de efeitos relativa \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o da tese do Tema 69 de Repercuss\u00e3o Geral. \u00c9 dizer, <\/em><strong><em>o ac\u00f3rd\u00e3o rescindendo, \u00e0 \u00e9poca de sua formaliza\u00e7\u00e3o, estava em harmonia com o entendimento do Plen\u00e1rio desta Corte<\/em><\/strong><em> relativo ao referido tema de repercuss\u00e3o geral, o que inviabiliza sua rescis\u00e3o<\/em>.\u201d<\/p>\n<p>Em suma, diante das orienta\u00e7\u00f5es acima, conclu\u00edmos que a coisa julgada \u00e9 uma garantia fundamental e cl\u00e1usula p\u00e9trea constitucional, que possui fundamento na seguran\u00e7a jur\u00eddica e na confian\u00e7a dos contribuintes junto ao Poder Judici\u00e1rio. Isso significa dizer que as decis\u00f5es definitivas somente dever\u00e3o ser rescindidas em ocasi\u00f5es excepcional\u00edssimas, sob pena de se \u201cbanalizar\u201d o instituto da a\u00e7\u00e3o rescis\u00f3ria.<\/p>\n<p>Conforme conceituado por Marco Antonio Rodrigues<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>, a a\u00e7\u00e3o rescis\u00f3ria \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o aut\u00f4noma que busca desconstituir coisa julgada por raz\u00f5es de invalidade ou justi\u00e7a. Ou seja, o seu papel n\u00e3o \u00e9 aplicar o atual entendimento do STF para todo e qualquer processo encerrado.<\/p>\n<p>A discuss\u00e3o envolvendo a tese do s\u00e9culo segue gerando debates no poder judici\u00e1rio. Recentemente, o STJ afetou para julgamento sob a sistem\u00e1tica dos recursos repetitivos o Recurso Especial n\u00ba 2066696\/RS, onde a 1\u00aa Se\u00e7\u00e3o se debru\u00e7ar\u00e1 sobre \u201c<em>a admissibilidade da a\u00e7\u00e3o rescis\u00f3ria para adequar julgado \u00e0 modula\u00e7\u00e3o de efeitos estabelecida no Tema n\u00ba 69 da repercuss\u00e3o geral do Supremo Tribunal Federal<\/em>\u201d, determinando a suspens\u00e3o de todos os processos que tratam desta mat\u00e9ria.<\/p>\n<p>Na expectativa de que este ser\u00e1 o cap\u00edtulo final desta novela, continuemos acompanhando cada epis\u00f3dio com a confian\u00e7a \u2013 e expectativa \u2013 de que, ao final, prevalecer\u00e1, a garantia dos contribuintes.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Rodrigues, Marco Antonio Manual dos recursos, a\u00e7\u00e3o rescis\u00f3ria e reclama\u00e7\u00e3o \u2013 1. ed. \u2013 S\u00e3o Paulo: Atlas, 2017. P\u00e1g. 350<\/p>\n<p><strong>Por\u00a0Augusto Chimborski e Luiza Fran\u00e7a Pecis <\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Passados mais de dois anos do tr\u00e2nsito em julgado da tese do s\u00e9culo, a exclus\u00e3o do ICMS da base de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3358,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"wds_primary_category":0,"footnotes":""},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-3284","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/marinsbertoldi.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3284","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/marinsbertoldi.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/marinsbertoldi.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/marinsbertoldi.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/marinsbertoldi.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3284"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/marinsbertoldi.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3284\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/marinsbertoldi.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3358"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/marinsbertoldi.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3284"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/marinsbertoldi.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3284"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/marinsbertoldi.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3284"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}