Artigos

Funding Imobiliário em Tempos de Poupança Escassa: A Governança Como Vantagem Competitiva

Publicado em: 05 out 2026

O modelo de financiamento imobiliário brasileiro sempre teve na poupança um de seus pilares. Os recursos captados por essa modalidade alimentam, via SBPE, linhas de crédito à produção e ao financiamento habitacional a custos historicamente competitivos. Ocorre que, nos últimos ciclos, o saldo da caderneta tem apresentado resgates líquidos superiores às captações, movimento associado à concorrência de investimentos com rentabilidade mais atrativa e à elevação da taxa Selic. O resultado prático é a redução da capacidade dos bancos de originar crédito imobiliário nas condições e no volume com que as empresas do setor se acostumaram.

Diante desse cenário, incorporadoras e loteadoras têm sido levadas a diversificar suas fontes de funding, recorrendo com maior frequência ao mercado de capitais, a estruturas de securitização e a linhas de crédito estruturado junto a instituições financeiras e investidores privados. Essa migração, contudo, não é indolor. É que as operações estruturadas de financiamento envolvem análise de crédito criteriosa, exigência de garantias robustas, covenants financeiros e, principalmente, um nível de diligência sobre a governança do tomador que muitas empresas do setor ainda não estão preparadas para atender.

É nesse ponto que a governança passa a influenciar diretamente a análise de crédito e condições de acesso ao funding. A avaliação do financiador não se limita à viabilidade econômica do empreendimento, alcançando também a estrutura decisória e a capacidade da empresa de produzir informações confiáveis, administrar riscos e demonstrar controles internos adequados. Nesse contexto, são relevantes a qualidade e tempestividade das demonstrações financeiras, a existência de orçamento e fluxo de caixa projetados de forma consistente, a segregação de funções entre áreas técnicas e financeiras, a definição clara de alçadas para contratação de endividamento, constituição de garantias e realização de investimentos, e a capacidade de a empresa apresentar, de forma organizada, o histórico de performance de empreendimentos anteriores.

Sob essa perspectiva, a governança corporativa funciona também como mecanismo de redução da assimetria informacional entre empresa e financiador. Estruturas decisórias claras, controles internos adequados e informações financeiras tempestivas e confiáveis permitem ao credor compreender melhor os riscos da operação, acompanhar o cumprimento das obrigações assumidas e identificar antecipadamente eventuais desvios.

Empresas familiares, em particular, enfrentam o desafio adicional de assegurar adequada segregação patrimonial e financeira entre sócios, holdings, sociedades operacionais e SPEs, evitando que relações internas do grupo comprometam a transparência necessária à análise do financiador.

A recomendação prática é clara: estruturar, com antecedência, processos formais de governança financeira e orçamentária, ainda que a empresa não esteja em processo ativo de captação. Isso inclui a padronização de relatórios gerenciais, a formalização de políticas de aprovação orçamentária, a definição de alçadas e procedimentos para aprovação de investimentos, endividamento e prestação de garantias, o estabelecimento de regras para operações com partes relacionadas e a manutenção de documentação societária e contratual organizada. Conforme o porte e a complexidade da organização, a institucionalização de conselhos ou comitês de assessoramento também pode contribuir para conferir maior consistência e previsibilidade ao processo decisório.

Empresas que chegam à mesa de negociação com esse nível de preparo tendem a obter condições mais favoráveis de prazo, taxa e garantias, além de reduzir significativamente o tempo de originação das operações.

Em um mercado no qual o funding tradicional perde fôlego, a governança bem estruturada deixa de ser diferencial e passa a ser pré-requisito. Incorporadoras e loteadoras que investirem nesse preparo estarão em posição mais sólida para negociar crédito junto a bancos privados – e para sustentar seu crescimento independentemente das oscilações do mercado de poupança.

Eduardo Cramer Ono

Eduardo Cramer Ono iniciou sua carreira jurídica em uma banca de advocacia voltada à área do Direito Civil. Após, passou a atuar em um escritório de advocacia full service, onde...

Luiz Antonio Althoff

Luiz Antonio Althoff iniciou sua trajetória no direito empresarial em 2018, como estagiário. Estagiou em um escritório de advocacia empresarial de grande porte em Curitiba, atuando em questões contenciosas e...
Rolar para cima