A notĂcia que um escritĂłrio de advocacia dos Estados Unidos jĂĄ adotou um ârobĂŽ-advogadoâ, despertou um desconforto no mundo jurĂdico e fora dele. ROSS, como foi batizado, nĂŁo farĂĄ sustentação oral nos tribunais, como talvez o leitor o tenha inicialmente imaginado. No escritĂłrio de advocacia, ROSS estarĂĄ Ă disposição dos advogados respondendo perguntas. Com grande capacidade de processamento, ele Ă©, na verdade, um banco de dados que contĂ©m enorme quantidade de informaçÔes jurĂdicas. Tendo um âcolegaâ assim tĂŁo douto, Ă© possĂvel economizar tempo com pesquisas na extensa literatura jurĂdica, necessĂĄrias para preparar uma defesa.
A novidade fez com que as pessoas passassem a questionar mais fortemente que profissĂ”es sofrerĂŁo menor impacto e quais serĂŁo extintas quando essa realidade estiver ao nosso alcance, ou seja, quando for economicamente viĂĄvel implantĂĄ-la por aqui, nĂŁo somente na esfera jurĂdica, mas em diversas outras.
Kris Hammond, da Universidade americana de Northwestern, especialista em interação homem-mĂĄquina, afirma que a crença de que computadores sĂŁo incapazes de avaliar o que estĂĄ acontecendo e tomar decisĂ”es jĂĄ pode ser encarada como incorreta. Acredita-se que as pessoas sĂŁo mais eficazes para essa função, mas, na verdade, elas seriam mais propensas a errar por causa, vejam sĂł, de seus preconceitos â novamente eles cerceando o desenvolvimento humano â que influenciam suas escolhas. Crenças, pressupostos, preconceitos, experiĂȘncias, percepçÔes e valores tĂȘm papel determinante na tomada de decisĂŁo individual. Uma sĂ©rie de teorias procuram explicar as ocorrĂȘncias sistemĂĄticas de erros e vieses que atrapalham os julgamentos humanos. Os interessados em se aprofundar nesta questĂŁo podem procurar: viĂ©s do excesso de confiança, viĂ©s da ancoragem, viĂ©s de confirmação, viĂ©s da disponibilidade, viĂ©s da compreensĂŁo tardia.
E as decisĂ”es tomadas em grupo, em que se afirma que âduas cabeças ou mais pensam melhor que umaâ? Nem assim vencerĂamos o robĂŽ! Ă claro que no grupo somam-se informaçÔes e experiĂȘncias que geram reflexĂ”es mais ricas e profundas sobre problemas complexos ao analisar maior gama de variĂĄveis, gerando por sua vez, mais ideias para o processo de tomada de decisĂŁo. Mas ainda nesta situação podem ocorrem fenĂŽmenos que prejudicam o julgamento como o pensamento grupal, que ocorre quando os membros do grupo estĂŁo obcecados por uma dada alternativa e passam a buscar a unanimidade, âatropelandoâ a avaliação das demais e a expressĂŁo de pontos de vista divergentes e pressionando membros que colocam em dĂșvida a alternativa preferida da maioria. Assim, aquele que tem dĂșvida desiste de expor sua apreensĂŁo ou atĂ© passa a minimizar para si mesmo a importĂąncia dela e se mantĂ©m em silĂȘncio, o qual serĂĄ interpretado como concordĂąncia e aprovação. O resultado Ă© que pode haver uma avaliação incorreta do problema ocasionada pela busca ineficiente de informaçÔes, a ocorrĂȘncia de vieses seletivos no processamento delas, a geração limitada de alternativas, a avaliação precipitada e incompleta destas, o exame superficial dos riscos, entre outros aspectos que levam a decisĂ”es incorretas que, apĂłs terem sido tomadas, tem-se a impressĂŁo que poderiam ser evitadas e muitas delas, de fato poderiam.
Por tudo isso, Ă© possĂvel concluir que os sistemas de inteligĂȘncia artificial nos serĂŁo muito Ășteis e terĂŁo maior impacto em ĂĄreas que requerem a anĂĄlise de grande quantidade de dados como advocacia, e seu uso serĂĄ intensificado na medida em que haja recursos. Que o desconforto sirva para nos impulsionar em direção Ă adaptação a este mundo volĂĄtil que vivemos. Ă um caminho sem volta!
Texto produzido por LaĂsa Weber Prust, especialista em Recursos Humanos do Marins Bertoldi Advogados Associados, e publicado em seu blog.

