Por Rafael Gonçalves de Albuquerque
O Japão vive, neste momento, uma das maiores crises de sucessão corporativa da sua história — um desafio que transcende o planejamento familiar e atinge diretamente a governança de empresas centenárias, especialmente nos setores tradicionais, onde o conhecimento técnico e cultural é transmitido entre gerações de forma quase artesanal.
Segundo levantamento de 2024, mais da metade das empresas japonesas (52,1%) ainda nĂŁo identificaram um sucessor claro para sua gestĂŁo. A AgĂŞncia de Pequenas e MĂ©dias Empresas estima que atĂ© 2025, aproximadamente 1,27 milhĂŁo de lĂderes empresariais com mais de 70 anos permanecerĂŁo sem herdeiros administrativos. Isso representa um terço das PMEs do paĂs. As consequĂŞncias econĂ´micas projetadas sĂŁo significativas: 6,5 milhões de empregos podem desaparecer, somando-se a uma retração de cerca de 22 trilhões de ienes no PIB japonĂŞs.
Essa situação não diz respeito apenas à continuidade operacional — trata-se de uma crise de legado, de falha na institucionalização da governança e na preservação do capital simbólico dessas empresas. A erosão é ainda mais severa nas chamadas indústrias tradicionais, como o artesanato e a manufatura de técnicas seculares. O número de profissionais ativos nessas áreas caiu de 280 mil (1983) para cerca de 60 mil em 2016. A produção do setor também despencou: de 540 bilhões para 96 bilhões de ienes. Para agravar o cenário, o Japão registrará em 2024 mais de 145 falências de empresas com mais de um século de história.
Governança de Transição: Ações Estruturantes em NĂvel Nacional
Diante desse risco sistêmico, o governo japonês tem articulado medidas com forte componente de governança pública para estimular a continuidade empresarial. Uma delas é a criação de plataformas de “matching” de sucessores, operadas por instituições públicas e privadas. São programas que visam conectar fundadores em fase de transição com empreendedores, profissionais corporativos e investidores dispostos a assumir a condução dessas empresas.
Entre os mecanismos mais relevantes estĂŁo:
• Programa de Apoio à Sucessão Regional: atua em parceria com prefeituras para identificar empresas em risco de descontinuidade e buscar sucessores aptos.
• Empreendedores da Revitalização Regional: estimula executivos de grandes centros urbanos a migrarem para o interior, com o objetivo de reerguer negócios locais.
• Programa de Revitalização com Talentos Urbanos: conecta profissionais de grandes cidades com empresas tradicionais, numa lógica de sucessão associada à inovação.
• Projeto Local 10.000: oferece capital semente e apoio institucional para startups que herdam ou absorvem negócios familiares.
ExpansĂŁo de Mercado e Valorização de IntangĂveis
Outro ponto estratĂ©gico Ă© o reposicionamento de mercado desses produtos, nĂŁo apenas como mercadorias, mas como ativos culturais com alto valor agregado. A National Traditional Industry Succession Support atua diretamente nessa frente, assessorando novos lĂderes na construção de branding, narrativa e estratĂ©gia comercial — sobretudo para captar consumidores internacionais que valorizam autenticidade e origem.
O suporte inclui a aplicação de selos de certificação como o do “Produto Artesanal Tradicional do Japão”, concedido pela Agência de Assuntos Culturais, conforme critérios da Lei das Indústrias Tradicionais de 1974. Até abril de 2022, 237 produtos haviam recebido esse selo. A certificação exige fabricação manual com técnicas e matérias-primas regionais, garantindo autenticidade e conexão com o território.
Tecnologia como Ferramenta de Preservação do Capital Intelectual
A transmissĂŁo do know-how tambĂ©m tem sido reimaginada com o auxĂlio da tecnologia. A agĂŞncia Dentsu, por exemplo, treinou sistemas de IA para replicar a avaliação sensorial de qualidade de atum — tarefa antes atribuĂda a mestres com anos de experiĂŞncia. O Ăndice de precisĂŁo da máquina já chega a 90%. Outro exemplo Ă© a empresa LIGHTz, que aplicou entrevistas estruturadas com artesĂŁos de ferro fundido Nambu, usando a inteligĂŞncia artificial para sistematizar critĂ©rios de produção e qualidade, garantindo que mesmo a ausĂŞncia fĂsica do mestre nĂŁo signifique a perda de sua tĂ©cnica.
Reflexões Finais: O Futuro da Governança Patrimonial
O caso japonês revela, em essência, um desafio que transcende fronteiras. Trata-se da urgência em profissionalizar a sucessão de empresas familiares e tradicionais sob uma ótica de governança patrimonial — aquela que combina continuidade administrativa com responsabilidade histórica e cultural. Sem mecanismos estruturados de transição e sem uma governança orientada ao legado, mesmo negócios financeiramente saudáveis podem sucumbir.
Esse diagnĂłstico Ă© um alerta para outros paĂses, inclusive o Brasil, onde milhares de empresas familiares caminham para o mesmo dilema. O futuro da tradição — e da riqueza cultural e econĂ´mica associada a ela — depende menos da hereditariedade e mais da intencionalidade na sucessĂŁo e na preservação do capital simbĂłlico e tĂ©cnico das empresas.
Fontes: World Economic Forum

